segunda-feira, 19 de junho de 2017

Crônicas Centrais 06

Amilton, O Conquistador


Tomando uma ceva com o Amilton, no Restaurante Rio de Janeiro, esquina Bento com Riachuelo, quando passam umas velhotas para a missa das seis horas na igreja das dores. O veterano, para mim era veterano, pois eu tinha 20 anos e ele já nos seus trinta e tantos quase 40, pega no meu braço e diz “olha só que tesão”! Assustei-me, pois era uma senhora de no mínimo setenta anos, baixinha e sem nenhum atrativo convencional.
Amilton foi o cara mais tarado que conheci, não no sentido de atacar mulheres ou se lançar para namoradas de amigos, mas naquelas de arrastar para seu apartamento mendigas, sem teto, faveladas, domésticas calejadas e idosas, o que aparecesse pela sua frente.
Lembro que na época dirigia uma variante azul escura e desfilava com suas conquistas. Com o tempo e a decadência, começou a ter que pagar mulheres, como era vagabundo ou fazia um bico aqui, uma trampa ali, estava quase sempre sem grana, então recorria a sua avó, não sei bem de sua formação familiar só sei que achacava a velha. Em uma dessas, depois de dezenas de achaques e sob a negativa intransigente da senhora partiu para um extremo, se não me engano morava no terceiro andar de um prédio e para chantagear sua avó disse que iria se matar se ela não fornecesse o dinheiro, só que o coitado escorregou e despencou três andares passando meses no hospital. Depois de recuperado ficou manco e foi internado várias vezes em clínicas psiquiátricas e hospícios. O encontrei algumas vezes em estado deplorável.  Esse foi Amilton, o indivíduo mais tarado e comprovadamente um expoente do dito popular que diz; tem gosto para tudo.

Eduardo Simch 

Obs: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério do leitor. 

Crônicas Centrais 05

Outsider


Fora da estrada, rebelde do fígado, decidi ir à volta do Gasômetro, logo encontrei Carlinhos Bugre, bebi alguns goles de sua cachaça barata, uns patricinhos e mauricinhas emprestaram o violão. Charlie disse: "o amor será eterno novamente",(rockeiro citando sambista; Nelson Cavaquinho) todos sorriram sem jeito. Emendei; "o poeta fala, quem tem saber interpreta" e, o baseado girou e girou o Charlie que de podre de bêbado começou a tocar na perfeita, mas antes ficou 20 minutos afinando o violão, quando ninguém aguentava mais, lascou Stones, Dylan e outros clássicos. O povo foi a loucura com a maestria de um 'sem teto'. A plateia foi aumentando e eu comecei a passar o chapéu, sem chapéu, na mão mesmo. O dinheiro daria para comprar champanhe, 480 reais e umas moedas , depois de umas dez clássicas e umas 8 músicas a pedido, saí e trouxe um fardo de ceva e uma garrafa de velho barreiro, todos já estavam voando, começava o por do sol mais famoso do mundo, as gatas dançando, a praia inteira se aproximou, surgiu um violão base e ainda uma gaita de boca, além de um atabaque, que automaticamente me apropriei. Tocamos os rocks do Charlie em um verdadeiro por de sol bailante, uma dupla de PMs passaram a cavalo sem caravana e a matilha continuava latindo, ou melhor, cantando. A marijuana rodava sem parar e Bugre brilhava com seus acordes sendo a estrela da festa. A essa altura já era uma festa. Uma gata o beijou na boca, Charlie dormia na rua e fedia pior que cachorro. Outra bêbada linda começou a também beijar o Bugre. Feliz, via a plateia de alternativos, ipsters, mauricinhos, bichos grilo entre outras tribos, aplaudir. Comecei a me puxar na percussão, mas o povo só tinha olhos ao poeta. Na distância uma garota negra olhava de esguelha, fiz um sinal que se aproximasse levantando uma lata de ceva.  Ela veio e cheirosa  sentiu a minha solidão, talvez a nossa e, me beijou. O sol lentamente foi desaparecendo no horizonte do Guaíba, escrevendo no céu uma quase aurora boreal.


Eduardo Simch 

Obs: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério do leitor.

sábado, 25 de março de 2017

A Doutrina do Choque - É a destruição e o esfacelamento de um país em vários

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2017/03/brasil-um-pais-sem-estado-e-o-objetivo.html
http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/

sábado, 4 de março de 2017

Crônicas Centrais 04

O samurai da Caixa

A Caixa tem seu nome não por algum objeto e sim pelo fato de entre as ruas Gal. Canabarro e Gal. Portinho, na Rua dos Andradas, bem ao centro da quadra existira uma agência de um banco de mesmo nome, daí, Caixa, ou turma da Caixa. Em meados dos anos 1970 o inverno de Porto Alegre era bem mais rigoroso, isso antes de o homem conseguir desequilibrar a natureza a tal ponto de fazer , por vezes 37, quase 40 graus em um verão que na minha infância atingia 27º no máximo e já era o suficiente para mergulharmos no Guaíba ou invadir a 'piscina' do Tribunal de Contas.
Mas como disse, naquela época ainda fazia frio de 4 a 14 graus no máximo, em invernos rigorosos, por vezes chegando aos 0º. Com o acréscimo do vento Minuano que dificultava o caminhar de um homem adulto e derrubava no chão, velhos e crianças, a maioria nem saia de casa em dias de forte vento, ou saiam acompanhadas de quem lhes assegurasse o equilíbrio.
E foi em uma noite dessas que o fato se deu, em um boteco, ex pulgueiro da velha Cila, agora comprado e reformado por japoneses, pai, mãe e dois filhos, um menino e uma menina, ambos quase adolescentes. O bar ficou bonito, desinfetado, desratizado, com novas mesas e cadeiras artesanais, certamente feita pelos próprios imigrantes nipônicos, ventilador de teto e uma variedade de saborosos salgadinhos, pastéis, bolinhos de galinha e carne, sanduíches prensados, uma novidade na época. Certa noite estavam nesse boteco, espalhados pelas mesas, Marcelinho da Gema, os saudosos Maninho e Rogerinho, Zeca Mazzeron, Nicanor, Lauro Foguinho, Alemão Ike,  Fumbi, Dondoca, Moacir, o irmão mais velho do Spock, eu e algumas meninas sentadas na porta lateral,  Márcia Barata, Regina Teina Farina e mais algumas que não sei precisar. O Minuano não dava trégua com seu zumbido e ar gelado em uma noite fria mas seca, agradável  para ficar na rua. Depois de várias caipiras e cevas, Lauro Foguinho e Nicanor foram acertar suas despesas, até porque o japonês já os estava quase expulsando devido a seus estados alterados, o dono dizia em um português confuso: 'pocura otu bá', traduzindo; procura outro bar. Entre reclamações e discussões os dois foram pagar a conta, só que o japonês não possuía registradora, talvez pela dificuldade que tinham com a numeração ocidental. Usavam uma calculadora muito interessante, de origem chinesa chamada soroban, onde duas traves verticais sustentam fios com esferas de madeira que fazem contas exatas, mas só compreensíveis por entendidos.
Estava feita a confusão, Lauro Foguinho, normalmente da paz, se revoltou contra o velho oriental e o chamou de ladrão, Nicanor também brigou e se recusou a pagar. O velho de dedo em riste dizia desaforos ininteligíveis a todos, pois reza a lenda que estrangeiros quando brigando falam na língua mãe. O Foguinho chamou o velho para briga, já na rua, os dois frente a frente na porta do bar, o Lauro transtornado da pinga e o Japa estático, mas com sangue nos olhos. A galera na expectativa, Lauro foguinho, em um frio de renguear cusco, tira a roupa, casacão, blusão, manta, camisa e camiseta e fica só de calças e tênis, já roxo de frio mas com a moringa cheia de cachaça começa a caminhar de ré, dá uns quinze passos e vem em uma corrida meio mambembe em direção ao Japonês impávido. Um metro antes de alcançar o adversário, Lauro faz um paradinha, ou seja, todo o impulso tomado para quem sabe, uma voadora ou um belo chute, foi em vão e ele dá com a sola do pé no dono do bar que desaba no chão, não pela potência do golpe mas pela surpresa da parada, para quem esperava um violento ataque foi cena ridícula que já puxou a primeira leva de gargalhadas. Só que dentro do bar, e ninguém havia notado pois todos atentos ao embate, o filho do Japonês dispara uma flecha etilo samurai, era endereçada ao Lauro, mas com a paradinha pegou no braço do Nicanor e atravessou, esse começou a sacudir o braço e berrar de dor. A galera diante de tal situação não conseguiu acudir ninguém pois a gargalhada generalizou-se compulsivamente. Entre mortos e feridos todos se salvaram. Mas desde então em cima da prateleira das bebidas, tal qual as velhas Winchesters nos saloons do do velho oeste, ficava um arco, como a alertar os afoitos; tu não és japonês, mas abre teu olho. 
Essa foi a história do Samurai da Caixa.

Eduardo Simch

Obs: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério dos leitores

quarta-feira, 1 de março de 2017

Crônicas Centrais 03

A Caixa - 01-

A Caixa tinha sua independência, nos sentíamos os bacanas da área central, mas tínhamos uma certa  proteção e ligação direta com a turma do Alto da Bronze, pela sua pracinha com quadra de esportes (pois na nossa área onde hoje é a Praça da Harmonia, na época era um quartel), e pela admiração que todo pré e adolescente tem pelos mais velhos e vividos. Mas indo direto ao assunto a Caixa tinha um time fixo de uns quinze rapazes, não conto aqui as garotas, umas doze no mínimo. E como toda turma daquela época, a Caixa preservava seu espaço, qualquer intruso, ou intrusos já era motivo de bronca. Bronca séria, quem passasse pela Caixa e tomasse uma ruim da galera, nem em cem anos voltava a passar naquele trecho. Certa vez o irmão do Katito, o Bola, flutuante da Caixa, pois logo se mudaram, reclamou para a gurizada que ao passar na recém feita Av. Perimetral, tinha sido agredido por uns medonhos que ali moravam e dominavam a área. Não deu outra, no domingo seguinte a gurizada da Caixa estava em peso, uns vinte e cinco, entre os chapa quente, os meia boca e os bunda moles, aqueles que viram macho quando em quadrilha. Tínhamos uma velha técnica, o falecido Gerson Renato, o Amarelinho, brabo, emburrado, marrento, como dizem os cariocas, era o dono da bola, parava o jogo quando tomava uma canelada e ficava jogando sozinho contra a parede da igreja das dores, até o pessoal perder a paciência e lhe roubar a bola e lhe encher de cascudos, aí vinha a sua mãe e fazia um discurso em defesa do filho no meio da quadra, era uma comédia, mas voltando ao assunto, ele era sempre escalado para “comprar uma briga”, mas quando era turma contra turma ia sempre junto o Harvey, esse sim, baixinho, forte, personalidade, galo cinza, invocado de graça, imagina provocado? E o resto da catrafa ficava escondido em uma esquina próxima, a outra parte da turma em uma quadra ao lado, ou nos dividíamos em duas equipes de ataque, uma pela frente outra por trás e enviávamos os dois para o meio dos adversários, já com o intuito de "comprar" e quando os adversários achavam que iam massacrar os dois pois estavam em maior número, atacávamos tal qual os vikings, sem trégua nem piedade.
Essa era uma técnica de combate dos caixeiros que nem Sun Tzu, general chines, filósofo e estrategista em batalhas, podia imaginar. 
Ressalto aqui que esse texto não é um elogio a violência, apenas o retrato de uma época e a inconsequência que muitas vezes o fogo da juventude encerra no peito dos jovens. 

Eduardo Simch

Obs: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério dos leitores

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Crônicas Centrais 02


Não sou muito carnavalesco, mas a mocinha que me acompanhava queria porque queria ver a amiga dela desfilar como destaque no carnaval de Porto Alegre. Maior tumulto do lado de fora das grades que separavam as arquibancadas de madeira, a rafuagem arrastando geral, só olhavam para minha cara com a gata grudada como mochila na frente e já iam roubar outra freguesia. Conseguimos chegar ao portão. Na época a festa era ainda na perimetral, cheio de gorilas de crachá, uniforme azul fedendo, todo mundo suado, revista geral. Pergunto, onde compra o ingresso? Um negão de uns 80 x 80 me diz : nos cambistas. Ainda tento argumentar; como? Funcionário da prefeitura e não me indica o guichê de ingressos? Nem me respondeu. E já eram todos terceirizados, maioria polícia fazendo um bico. Um rapaz magrinho com sua namorada foi quem que me disse: não tem mais , está tudo na mão dos cambistas. Eu tinha uns cento e cinquenta pilas no bolso e pensei, 'que lesma lerda!', vou comprar dos ladrões e ficar duro. Enfiei a mão no bolso....apareceu uns dez cambistas. Arquibancada, falei, duzentos bem na frente, respondeu o salafra, gravateei com carinho a gata e arrastei o Zezinho para um canto, a voz de Giba-Giba anunciava os Acadêmicos da Orgia. Amigo, te dou cento e cinquenta contos por dois ingressos, é que minha mulher quer ver a irmã desfilar...o cara virou as costas e continuou; 'ingresso', 'ingresso'. A garota excitada com o ritmo e procurando enxergar a amiga me pergunta: amor, comprou os ingressos?, ela tão feliz e eu com ódio do mundo, daquele barulho repetitivo, do cheiro de mijo, do empurra –empurra, mas sem coragem de dizer vamos embora dessa merda, a empolgação dela era tanta e sua confiança em mim, pois passávamos no meio de quadrilhas inteiras, todos roubando, que só dizia legal, legal, vamos achar um lugar bom, mas já me direcionando para o lado oposto das grades de entrada. E não é que uma mão me aperta o ombro e uma voz diz; daí, Alemão Eduardo? Viro o rosto e dou de cara com o Arthur Pinto, de jaleco azul, crachá e sorriso na cara. Como vai Alemão? Querem entrar e assistir os desfiles, diz o Zinho velho de guerra. Resumindo, ele deu seu carteiraço da ‘Interpol’ e ela e eu ficamos no melhor lugar vendo a Quequéia, agora lembrei o nome da amiga, desfilar fantasiada de pimentão em uma escola do segundo grupo, a namorada abanava e gritava como se naquela balburdia alguém pudesse ouvir alguma coisa ou enxergar alguém na multidão. Com o fígado quase zerado, bebi minha oitava cerveja e já pensava na continuidade da festa com os cento e poucos contos pulando na minha carteira. Eu quieto, eles sambando. Me chacoalhei, e no meio da gritaria e batucada resolvi gritar e gritei; valeu, Zinho!! Ninguém ouviu. Mas eu disse.
Eduardo Simch 

Obs: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério dos leitores.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Crônicas Centrais - 01 -


O falecido Garrincha, ou Garra para os íntimos, velho bebum do centro de Porto Alegre, mais precisamente frequentador do trajeto de botecos que ia do antigo restaurante Rio de Janeiro do Odelmo, rua Bento Martins com Riachuelo, ao Bar do Dante, quase esquina com as ruas João Manual e  mesma Riachuelo, junto com o também finado Paulista, da Matriz, rua Duque de Caxias e eu decidimos depois de vários birinaites encontrar a casa de espetáculo de um tal de Glabinei. Já em plena Av. Getúlio Vargas, sem encontrar o local, completamos o porre em um bar da região. Um frio de renguear cusco na madrugada de POA. Garrincha bêbado e só com uma camisa de manga comprida já o Paulista chacoalhado pela pinga misturada aos remédios psiquiátricos que tomava, se aquecia em sua jaqueta quente e moderna dada pela mãe. Na volta Garrincha propõe uma troca, sua camisa surrada pela jaca do Paulista, pressenti a confusão. Claro que o maluco não aceitou a troca e na escuridão da avenida, Garrincha, normalmente pacifico tentou tirar na marra a jaqueta do Paulista, se engalfinharam, estou apartando e dando uma dura nos dois quando estaciona um camburão da brigada militar, que chegara na surdina com as luzes apagadas. Descem quatro meganhas já com os cassetetes de pau em punho. Mão na parede, ponta pés de botinas e cutucadas de cassetete nas costelas, começava a tortura. Repentinamente me virei e disse antes de apanhar mais, "sou filho do coronel fulano de tal, da brigada militar", anos noventa e picos, não tinha toda essa informação via rádio e outras tecnologias. Se entreolharam, um tenentinho se aproximou de mim e entre receoso e desconfiado já ia me pedir documentos, o que comprovaria a mentira, citei onde morava dando o endereço verdadeiro do coronel que realmente existia, só que era pai de um amigo de adolescência e não tinha o menor parentesco comigo, continuei falando, aproveitando o despejo de adrenalina que ocorre nessas ocasiões, disse que iria pegar o número da viatura, que queria falar no rádio com o comando e outras balelas ameaçadoras, as quais deixaram o tal tenente e seus praças com uma puta pulga atrás da orelha. E assim, já em um tom respeitoso nos liberaram mandando para casa com recomendações sobre os perigos da noite e coisa e tal.
Paulista e Garrincha rosnaram um para o outro em todo o percurso da volta , ainda tomamos mais algumas até chegar ao centro da cidade.

Eduardo Simch

Obs.: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério dos leitores.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O Perigoso Preço da Felicidade


Levou a droga, o couro, o bobo e os pisantes do cara. Deu  uma joelhada nas bolas, um Zidane no melão e deixou o rapaz caído quase com a cara no cagadouro do minúsculo banheiro do boteco pé sujo do Zé. Voltou normalmente para a mesa da malandragem enxugando as mãos em uma toalhinha de papel vagabundo. Já estava no segundo martelo de pinga quando Gordo se acordou com forte dor no saco, nariz ensanguentado e metade dos cabelos sujos de merda do vaso entupido do cubículo que ostentava as letras WC na porta corroída por cupins. O otário sem pó, sem carteira, relógio e tênis, passou uma água na cara e saiu cambaleando do boteco, montou na velha Honda cinquentinha e partiu sem dizer palavra. Josué nem olhou para o indivíduo e continuou a vangloriar-se perante a plateia que sacara tudo o que tinha acontecido. O sol castigava a velha capital  úmida e quente. Calor que as 3 horas da tarde daquele verão de janeiro só era amenizado pela quantidade de árvores que existiam na antiga Rua do Arvoredo. O boteco do Zé ficava no térreo daquilo que fora uma tradicional casinha de arquitetura lusa e hoje um pardieiro. 
Fez-se um pequeno silêncio até o turco Elias perguntar – Então, Josué, saiu ontem de cana, onde tu tá morando?
- Por enquanto em cima dos sapatos, mas assim que eu fizer um troco vou abrir um salão de cabeleireiro, pois esse tempo em que passei no colégio fiz um curso e tenho até certificado. Nesse momento ouviu-se o ronco da cinquentinha subindo à calçada e todos olharam. O gordo com a moto ligada entre suas pernas, braço esticado na direção de Josué e em sua mão uma mini Beretta calibre 22, dessas de guardar em bolsinha de madame, ato seguido de um estalo, um leve ‘clac’ e o quase sussurro de Josué: ai! Com um pequeno furo no peito já com filete de sangue, o corpo desabou da cadeira. Gordo desceu da moto e veio até a mesa que como num passe de mágica agora sustentava o 38 do Adão, que mantinha a mão espalmada ao lado do berro, este com o cano virado para a pança do gordo. Miraram-se por segundos, gordo tinha sangue nos olhos e merda seca nos cabelos. Adão o encarava impassível com seu velho olhar amarelado pela hepatite crônica. Zé, atrás do balcão continuava imóvel com seus braços cruzados, camiseta regata outrora branca, hoje amarelada pelo uso e pelo suor, pano da mesma cor atirado sobre o ombro esquerdo e o eterno palito de dentes no canto direito da boca, notou um acordo tácito entre gordo e Adão. Turco Elias, imóvel, parecia não estar ali, apesar de estar sentado entre o cadáver e o calibre 38 do malandro. Gordo abaixou-se e recuperou seus pertences, sentou-se na cadeira do morto e pôs nos pés seus tênis de 700 reais. Meteu novamente a mão no bolso do presunto e tirou a pacoteira com a droga. Adão chupou os dentes e tamborilou os dedos ao lado do oitão. Gordo, mirando-o com cara feia, entendeu o recado. Rasgou com força o grande envelope plástico em duas partes quase iguais. Botou a metade maior em frente a Adão. Virou as costas, guardou os bagulhos, sentou na moto ainda ligada e sumiu. Em segundos o bar ficou vazio, apenas Zé recolhia os copos com o cadáver de Josué entre as pernas enquanto ouvia o barulho da sirene cada vez mais próxima pensava: O filho da puta do turco Elias aproveitou a muvuca e saiu sem pagar a conta.







Simch

sábado, 3 de outubro de 2015

O melhor Amigo


A lâmina do machado decepou o braço esquerdo de um só golpe, o engasgo de horror o despertou do pesadelo. Acordou com o membro dormente pelo peso do corpo em mais uma péssima noite de desmaio alcoólico. Sentiu a ânsia de vômito entremeada de calafrios apesar do abafado meio-dia do verão tropical. Abriu a velha geladeira vazia na triste ilusão de encontrar uma cerveja. Bebeu água da pia e teve de correr ao fétido banheiro para não vomitar no corredor. Depois olhou o rosto envelhecido no espelho rachado e viu os músculos da face tremer ininterruptamente como a executar uma muda sinfonia de tiques nervosos. Voltou à cozinha e com a alma no escuro pensou na luz debaixo da pia, o brilho estava exatamente entre a água sanitária e o desinfetante; Pereirinha, álcool 90 graus, mais que depressa agarrou a velha e vazia leiteira metálica e despejou metade da garrafa completando com um pouco de água, em seguida segurando com as duas mãos minimizou a labiríntica tremedeira com um imenso gole. A terrível sensação de envenenamento fez com que, como um cospe fogo, regurgitasse violentamente até expelir o esverdeado líquido que sabia ser a bílis. O segundo gole desceu queimando, mas não voltou igual ao primeiro e como um passe de mágica consumiu com o tremor, os tiques e o mal estar. Fez a barba na firmeza das mãos e antes de sair mirou com gratidão para debaixo da pia deixando escapar um; "fique quietinho aí", como se falasse a um cachorro engarrafado.


Simch

quinta-feira, 30 de julho de 2015

As Anáguas Molhadas

Nada n'água, anágua da mulher/amor
Que nada, não nada, mas caminha sobre a água
E foi a águia que pegou a sereia d'água
Disse; tu não és águia e sim água e nado em ti
Mas a égua esperava mais do que belas saias
Não tardava a espiar as coxilhas dos desaguados
Foi então que a confusa águia pousou na égua
Desencantada com os murmúrios dos mortos desaguados
Libertandando a sereia d'agua que era égua, águia e d'agua
Assim se fez a esperança, de que um dia, a águia, 
Em cima da égua vomitasse sobre um copo vazio, 
Que esperava se encher de águias
E em plena comunhão dos 'ás' e 'és' que surgiu a cobiça
Cobiça dos 'd'os'e d'olhos
Assim como os alados caralhos que alertados pelos
Vorazes d'olhos farejaram sereias e anáguas
E a mulher, mãe d´água, pai d´égua, que esperava um dia ser 
Voar como uma águia, nada mais era
Que a terra pés, com suas anáguas, olhos d'agua e todas as solidões 
Fantasias de sereia a espera do não digo, mas do falo voador
Seguiu, não para Acrópole em Atenas e sim para a cópula sem anáguas 
Com olhos d'agua, sonhos de sereias e voos de águias

Simch e Luiz Fernando Costa (Gordinho)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tinta


Acrílica s/ papel
Poesia: Eduardo Simch

Tinta

No atelier o som do computador
Toca velhas músicas na jovem rádio
O pintor cosa as picadas dos mosquitos
A tinta escorre do pincel como se dinheiro para compra-la fosse farto
A obra está pronta, só falta existir
Assim como a paz e o fim da fome no mundo

Um inseto cai no copo de bebida
O artista o engole junto com a cerveja morna
Tudo é demorado, com exceção do tempo
Esse senhor que nos leva das fraldas a mortalha
Uma pincelada é necessária para que outras a acompanhem

A morte apareceu na tela reluzente da máquina nova
O rock and roll começou a mostrar que não era para homens velhos
Arte, outra música ou fugir da morte?
Um pássaro bateu no vidro, namorando o próprio reflexo
Vivo, quero continuar vivo dizia o pássaro antes de cair exausto no chão.

As janelas estão abertas
As portas e frestas também, porque morrer?
Sem muito cuidado a ave foi atirada nas sombras da noite
Sumiu na escuridão da floresta.
A escuridão da floresta só é boa para os pássaros e os pintores



sábado, 20 de dezembro de 2014

O 4º E





O 4º E
Os sete pontos na sobrancelha ainda doíam quando a ambulância o deixou na instituição. Pedro ia para seu terceiro internamento por álcool e drogas, sentia que as coisas não iam bem e que seu horizonte era nebuloso. Na chegada ao hospício, bêbado brigou com um enfermeiro e em consequência foi direto para a ala de contenção, o famigerado 4°E. A ala de contenção do hospital psiquiátrico abrigava pacientes com histórico de violência, tentativa de suicídio, dependência química pesada e graves doenças mentais, além de servir de trânsito para presos do manicômio judiciário a espera de audiências e menores infratores que participaram de motins em suas instituições correcionais. Depois de medicado custou a achar o dormitório que era um dos últimos da grande galeria. No recinto havia uma janela gradeada por fora de onde pendiam trapos atirados por internos da “Freud”, ala que ocupava o andar superior. Havia três beliches e duas camas de ferro, ao lado da porta um beliche com a cama de baixo desocupada, porém sem lastro nem colchão. Forte cheiro de urina mal disfarçado por desinfetante. Na enfermaria o atendente lhe dera cobertores, lençóis e um travesseiro, além de ordenar que tomasse banho e vestisse o puído uniforme do 4º E, recomendando-lhe silêncio e ressaltando em tom ameaçador que ali havia regras. Na impossibilidade de dormir no chão úmido e gelado o homem voltou até a sala da enfermaria no início do corredor. Emerson, o enfermeiro, fazia anotações em um fichário. Quando o viu quis logo saber o porquê de este não estar dormindo, Pedro respondeu que não havia colchão nem lastro na cama. O enfermeiro, levantando-se e abrindo a meia porta estilo balcão mandou o interno entrar, e disse em tom baixo, mas extremamente autoritário: A distribuição de colchões e demais artefatos é feita durante o dia, quem é internado a noite dorme como puder, não fazemos preparativos durante a madrugada e, além disso, você não está dormindo porque não tomou o remédio e sim o cuspiu fora, se na medicação da manhã isso se repetir eu mesmo lhe aplicarei um sossega-leão na veia do pescoço que te fará dormir por dias. O recém chegado não disse nada, então o atendente apontou uma porta ao lado do banheiro dos funcionários e disse: Ali tem colchões, pegue um. Haviam seis colchões em estado razoável, três só na espuma e um quase novo que foi o escolhido. Tomou banho, vestiu a roupa e pôs o colchão no chão, dentro do buraco sem lastro no espaço de baixo do beliche. Um grupo de garotas de babydol corria e saltitava pelo corredor. Uma sirene tocou interrompendo seu sonho, abriu os olhos, a faxineira adentrou o quarto proclamando: Hora do café pessoal, vamos levantar! A friagem e o coral de tosses despertou-o por completo. Sentou-se na lateral da cama e deu de cara com um homem branco, forte como um touro, sem os dois dentes da frente sorrindo efusivamente e tendo nos olhos o registro da pesada medicação. Quer fumar? Perguntou Alexandre. Assim se chamava o interno, mostrando vários cigarros avulsos nas mãos espalmadas. Aqui eu fumo oitenta por dia e nunca me faltam cigarros, completou. Pedro aceitou um, acendeu e olhou em volta. O beliche que ficava no meio do quarto servia como pedestal a um imenso homem negro com o olhar perdido que sentado na cama de cima balbuciava algo sobre cavalos mortos. Ao lado, deitado no chão, “Sol Quente”, magrinho e agitado gargalhava fumando um toco de cigarro. No outro extremo do quarto, no leito de cima de um dos beliches, Valdir, mostrando a dentadura postiça, cantava músicas românticas ininterruptamente. Na cama de baixo, um italiano conhecido como Gringo, tentava explicar acontecimentos de sua vida sem que ninguém lhe desse atenção. Instigado pelas risadas de "Sol Quente" Pedro começou a observá-los com atenção, nesse momento Valdir tomou uma atitude raríssima, parou de cantar. O novato era foco da atenção dos pacientes. Olhavam-no como se esperassem que falasse algo. Sou agnóstico. Declarou inspirado no crucifixo que Valdir ostentava no pescoço. Poderia ter dito qualquer outra coisa para por fim a expectativa. Sol Quente parou de rir. Agnóstico é uma palavra grega: “a” em grego significa “não”, gnosis “saber”. O agnóstico diz; “Não sei se há uma realidade objetiva que é refletida, transformada em imagem por nossa sensação; afirmo que não há meio de se saber tal coisa”. Era Alexandre quem dissecava a despretensiosa declaração. Pedro olhou curiosamente aquele homem, que com seu sorriso desdentado, lhe oferecia um cigarro. Pegou. Valdir começou a cantar, Sol Quente a rir. Pedro levantou-se e espiou o corredor. Para sua surpresa as garotas que saltitavam no sonho, agora todas de jaleco branco e crachá de estagiárias em psicologia, convidavam aos recém acordados para a reunião matinal. Voltou ao quarto, e pedindo atenção de todos perguntou: Porque Sol Quente dorme no chão?
Quem esclareceu de um rompante só foi Alexandre: - É que Adão, o negro do beliche de cima, conta que esquartejaram o cavalo dele por vingança e desde então Amílcar Pelegrino, o “Sol Quente”, tem pesadelos com os pedaços do bicho que diz estarem em cima de sua cama todas as noites, por isso dorme no piso gelado e quando saímos para a recreação Sol Quente fica sempre na nesga do “astro rei” que banha o pátio reservado para os internos do 4º E na esperança de compensar a friagem noturna, repetindo ininterruptamente: Sol quente é bom, sol quente é bom... ! Adão aparentemente desatento em seu olhar sampaku disse: Quero chocolate, você tem chocolate? A pergunta era para Pedro que respondeu com outra pergunta: Quero bebida, você tem bebida? O homem disse não e Pedro completou: Então estamos quites, também não tenho chocolate. Certo, falou Adão, serenamente. Depois da conversa surrealista decidiu seguir a máxima; “Em Roma, como os romanos”. Sabia que poucos ali se encontravam em condições de desenvolver um raciocínio linear necessário para qualquer diálogo. Porém compreendera o drama de Sol Quente e se surpreendera com a desenvoltura verbal de Alexandre que justificava sua loucura pelo excesso de “estudo” e por incrível que pareça, era formado em Filosofia . Tudo que foi dito ou feito de bom pelo homem, foi feito por mim. Declarou Alexandre, dizendo-lhe que parafraseava Espinosa, - inquisidor geral da Espanha, cardeal, bispo e ministro da corte de Filipe II, que viveu de 1502 a 1572 -. Orgulhoso de seu conhecimento completou; Todo o louco que acredita ser Jesus, Napoleão ou qualquer personalidade histórica, inconscientemente é uma parte viva do pensamento de Espinosa. Eu sou a síntese! Constatando o sério problema mental de Alexandre pensou o quão confortável seria se em momentos de crise pudesse transferir a responsabilidade para personalidades grandiosas. Depois da prévia de como ia ser sua estadia naquele local, teve a impressão que um pouco abaixo de sua garganta um tijolo negava-se a descer para o estômago. Esbanjando prepotência, dois enormes atendentes estilo “roupeiro de portas abertas” ordenaram que fossem imediatamente ao refeitório, pois quase terminara o horário do café. Não gostando da maneira truculenta das duas figuras, no trajeto para o refeitório, Pedro pensava se os cinco do quarto não venceriam os dois arrogantes na porrada. Difícil, pois além do “grupo de oito”, (equipe formada por oito internos de outra galeria, utilizado para imobilizar revoltosos), entre enfermeiros, auxiliares e atendentes só no 4º E eram vinte, um mais forte que o outro. Já os internos somavam sessenta, mas a grande maioria incapacitada e os mais salientes devidamente dopados. A fila para o café realmente era uma galeria de horrores, seres humanos inchados, desdentados, deformados, cabelos picotados ou raspados por eles próprios com velhos aparelhos de barba, outros nus e todos num ritmo que se resumia em trocar o peso do corpo de uma perna para a outra num balanço doentio. Movimento causado por medicações da família dos neurolépticos, que se por um lado entorpece o paciente em contrapartida causa imensa agitação interior. Daí o balanço de Sol Quente, Alexandre, Gringo, Valdir e Adão e todos os outros que Pedro ainda não conhecia. O homem começou a imitá-los para que os funcionários não notassem que novamente havia escondido sob a língua e cuspido os remédios no banheiro. Num ambiente como aquele tudo podia acontecer. O cenário lhe trazia à memória filmes sobre manicômios, mas, com a diferença de que ali não havia dublês e nem atores representando. Quando já estava quase entrando no refeitório, um enorme paciente gordo conhecido como Brastemp enfiou-se na sua frente abrindo espaço a cotoveladas e acertando-lhe uma no rosto. O seu metro e oitenta e três de altura, alcançava apenas o ombro de Brastemp, com o nariz sangrando reclamou a um enfermeiro que ostentava uma bandagem na cabeça. Este o aconselhou a aceitar a ”lei do mais forte”, dizendo que afinal de contas, ali, Pedro era o novato. Brastemp que ouvira a queixa o encarava sorrindo debochadamente, era um sósia do Brutus, vilão dos desenhos animados do Popeye, suas sobrancelhas pareciam um grosso risco de caneta hidrocor. Instintivamente e com os nervos a flor da pele, conseqüência imediata da falta de álcool, Pedro deu tal murro na boca de Brastemp que os ossos de sua mão chegaram a ranger. No tombo o gigante derrubou dois outros que estavam na fila. Ao levantar-se veio em direção a Pedro espumando pela boca ensangüentada, com uma tapona deixou estendido um funcionário que tentou segurá-lo. Pedro o esperou simulando com os braços que ia repetir o mesmo golpe, quando a distância se fez exata bateu um “pênalti” com bico do pé direito na genitália do doente mental. Covardia ou sobrevivência? Não teve tempo para chegar a uma conclusão, apenas sentiu o agulhasso da seringa com “anatensol” e logo pessoas lhe carregando ao quarto, amarrando-o na cama, seu corpo todo formigando. Tentou falar, mas seus ouvidos identificaram apenas sons pastosos. Ainda teve tempo de ouvir a frase dita pelo enfermeiro com o curativo na cabeça: Bem vindo ao 4ºE.
Durante a impregnação, Pedro sofreu terríveis pesadelos, num deles; visualizava de dentro de uma cova sem caixão, conhecidos, alguns muito tristes, mas a grande maioria aparentando alívio e até satisfação por sua morte. Sonhos desconexos e “viagens” que misturavam imaginação e realidade faziam parte do repertório que dominava seu cérebro. Com um mal estar ininterrupto fez as necessidades fisiológicas na roupa em função da incapacidade motora. Nem nos piores dias de seu alcoolismo havia sentido tamanho sentimento de impotência física e vazio existencial. "O sonho acabou"! Teve medo de enxergar John Lennon, mas quem dissera a frase fora Dna. Enir, atendente de enfermagem que há dias pacientemente lhe dava banho e comida na boca. Os olhos ardiam-lhe pela forte claridade das lâmpadas. Aos poucos conseguiu ajustar o foco do olhar no rosto da mulher. Era loira artificial, meia idade, gorda de aspecto simpático. A falta de equilíbrio dificultava todos os movimentos, mal conseguia se manter sentado no banco coletivo do irrequieto refeitório tal era a potência da medicação usada para imobilizar os rebeldes. Medicação que começava a desempreguinar-se de Pedro. Perguntando a atendente porque não conseguia segurar a colher, (únicos talheres permitidos no 4º E). Dna. Enir disse-lhe que há dias besuntava-se todo com a comida, tropicava com a bandeja e vivia em estado de semiconsciência, impregnado, no jargão psiquiátrico. Tinha várias perguntas a fazer, mas resolveu citar Augusto dos Anjos: Meu cérebro rola dentro do coco, será que estou ficando louco? Calma que logo ficarás bem. Tranqüilizou-o Dna. Enir . Claudicante, caminhou pela galeria em direção ao quarto, no caminho Alexandre oferecendo-lhe cigarros numa espécie de boas vindas ao ”ressuscitado”, contou orgulhosamente que durante seu período de impregnação Brastemp passara por doze sessões de eletrochoques. Era o ano 2005 e Pedro não entendia como ainda usavam essa “terapia”. Horrorizado pela certeza de estar no pior manicômio de todos que conhecera tentava manter o cigarro na boca mordendo o filtro com os dentes. Sentado na cama que agora tinha lastro, fronhas e lençóis limpos encontrou todos os componentes do quarto. Situação anormal na galeria, pois durante o dia com exceção dos impregnados, amarrados nas camas ou imobilizados como “múmias”, cruel técnica de enfaixar a pessoa com ataduras molhadas, que apertam mais quando secam deixando só o rosto descoberto , todos os pacientes passavam o dia fumando e caminhando de um extremo ao outro da ala de contenção. Sol Quente, sem o tradicional riso nervoso fumava em silêncio. Novamente esperavam que ele dissesse algo. Atacou com a famosa frase de Ernesto Guevara: “Temos que endurecer, mas sem perder a ternura”.Com exceção de Alexandre ninguém conhecia a frase e como falava em endurecer, Sol Quente começou a masturbar-se. Valdir o obrigou a sair do quarto aos empurrões. Sol Quente caiu e bateu a cabeça na quina do beliche de ferro. Gritaria geral. Pedro tentou acalmar os ânimos, mas já era tarde. O grupo “dos oito” fora chamado para eletrochoques em Valdir a mando da Dra.Claudia responsável pela galeria. Formado por oito fortes pacientes usando uma farda diferenciada, o grupo dos oito tomava de assalto qualquer dependência do hospício e imobilizava o rebelde. Alexandre que assistia a tudo ao lado de Pedro, falou; Já que citaste Che Guevara, também vou citar; A farda modela o corpo, mas atrofia a mente. Só que nesse caso, a mente a ser atrofiada será a do Valdir, respondeu Pedro. O filósofo começou a rir nervosamente expondo sua dentadura banguela. Pedro estirou-se na cama, mas não conseguiu dormir apesar do resquício de impregnação. No escuro do quarto, apavorado, acompanhou todos os gritos, sussurros e surtos psicóticos da pior ala da instituição. O enfermeiro o acordou de um cochilo sem sonho informando que a Dra. Claudia lhe aguardava para consulta.
A sala ficava ao lado da enfermaria no início do corredor. Emerson abriu a porta olhando-o enviesado. Muito prazer seu Pedro pode sentar-se, disse a médica. Cabelo escuro deveria ter pouco mais de vinte cinco anos, bonita, cenho franzido. Como está se sentindo? Perguntou - lhe com o olhar forçosamente firme, usava palavreado seco, tentando demonstrar autoridade. Autoridade que realmente tinha dentro do 4º E. Forjada pelo medo. Desde sua adolescência Pedro havia conversado com pelo menos uma dezena de psiquiatras. E todos eles eram mais seguros que a jovem doutora Claudia. Tenho informações que o senhor não vem tomando a medicação. Senhora, disse Pedro, há anos faço análise psiquiátrica e sei que os medicamentos neurolépticos causam terríveis efeitos colaterais e são indicados à pacientes portadores de esquizofrenia, doença que não tenho, sofro de dependência química e alcoolismo cujo tratamento é única e exclusivamente a completa abstinência. O senhor está querendo ensinar como devo diagnosticar e tratar meus pacientes. Disse-lhe, com os olhos saltando das órbitas. Pedro sentindo que ia piorar sua situação tentou contemporizar. Não doutora, apenas transmito o consenso de vários outros médicos, pois é nossa primeira consulta e... Para seu juízo senhor, disse a médica interrompendo-o, já que não se recorda, eu o avaliei no momento de sua internação, onde concluí; estado de demência, agressividade compulsiva, manifestações suicidas e monólogo subjetivo. ”Monólogo subjetivo”, pensou, devia estar falando sozinho e o pior é que não se lembrava do episódio. Era o famoso “apagamento alcoólico”. Ficou em silêncio tentando formular uma réplica, mas Claudia concluiu: Por essas razões vou aumentar sua medicação, a consulta está encerrada, nos vemos amanhã, tenha um bom dia senhor Pedro. Emerson que ouvira a conversa em pé atrás da cadeira abriu a porta para que o interno saísse. O atendente que não costumava falar com pacientes a não ser para dar instruções, mas com um movimento de cabeça indicou que Pedro entrasse na enfermaria para um bate-papo. Ô Pedro, notei que tu de louco não tens nada és um cara inteligente e eu já vi muitos caras inteligentes saírem daqui completamente loucos mesmo, veja o exemplo do Alexandre. Essa “doutorazinha” é metida a besta. Faço um trato contigo, se não causares mais brigas, especialmente com funcionários, (não se recordava da cadeirada no enfermeiro), e ajudares a manter a tranqüilidade aqui na Mario Martins, (assim se chamava oficialmente o 4º E), te darei a medicação via oral e farei “olho branco” para cuspires fora. Pedro concordou de imediato. Saindo para o corredor Alexandre o aguardava para lhe dar um cigarro. Pedro já se considerava um rato de hospício depois de tantas internações. Mas surpreendeu-se ao passar em frente ao banheiro e ver doentes dando banho, enxugando e vestindo outros doentes mais “atrapalhados”. Alexandre que o acompanhava contou que os funcionários, com exceção de Dna.Enir que inclusive era discriminada pelos colegas, tinham nojo de cumprir essas tarefas. O homem notou que as únicas pessoas que não negligenciavam solidariedade no 4º E, eram aquelas que também não a recebiam. Sentados num banco no meio da galeria, Valdir, “robotizado” pelos choques combinados com cavalares doses de remédios, desafinava interpretando músicas românticas sob o olhar perdido de Adão. Perdido, porém esperto, pois já fazia uma troca com um outro paciente de uma surrada calça jeans por duas grandes barras de chocolate trazidas por familiares nos escassos dias de visita. Fumavam assistindo o interminável vai-e-vem de internos quando soou a sirene. Emerson meio corpo para o corredor escorado no balcãozinho da porta, gritou: Terapia ocupacional! Oba! Exclamou Alexandre começando a declamar um poema; A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber. A professora é muito gostosa e é por isso que a homenageio com Rainer Maria Rilke, grande poeta lírico nascido em Praga, antiga Checoslováquia, viveu de 1875 a 1926. A erudição de Alexandre causava curiosidade em Pedro. Não entendia como Alexandre sujeito a tratamento com choques elétricos, onde quebrara os dentes da frente no impacto dos maxilares pela violenta descarga, podia contar com a memória para citar poemas. Foram todos para a grande sala no fim do corredor, tinha uma televisão desligada e presa à parede num dos cantos do recinto, suspensa dentro de uma caixa com tela protetora de arame para que internos não a quebrassem. A mesa coberta por folhas de papel em branco ocupava o centro da sala. Lorena entrou sorrindo e distribuindo lápis de cera de uma pasta que trazia na mão. Lápis que vários doentes começaram a mastigar assim que receberam. Sol Quente chegou atrasado, curativo na cabeça, nu, e com o pênis ereto. Motivo pelo qual foi conduzido pelo grupo dos oito para a sala de “mumificação”. Lorena era formada em Artes e ministrava Arte Terapia na Instituição. Alexandre tinha razão. Lorena não era bonita, era linda com seus olhos azuis, lábios carnudos, corpo escultural e muito inteligente. Sempre que se aproximava de Pedro, o perfume delicado da professora acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Era o sonho erótico dos profissionais da casa e com certeza de todos os internos que ao fim da aula se revezavam nos banheiros para a masturbação. Como não tinha habilidade para desenho ou pintura resolveu escrever na folha que Lorena lhe dera e em todos os horários de arte terapia ele escrevia. E por vezes debatia com a artista os assuntos que abordava em seus textos. Em conseqüência destas conversas desenvolveram uma afinidade especial, afinidade que ficou notória na instituição quando esta se ofereceu para retirar os pontos da sobrancelha já cicatrizada de Pedro num hospital repleto de médicos e enfermeiros, roçando levemente seus seios no rosto do interno.
Aos exatos sessenta e cinco dias de muitas brigas, sessões de eletrochoques, ”mumificações”, amarrações em cama, berros noturnos e uma infinidade de horrores aos quais Pedro passara quase incólume, tinha em mãos o esboço de um conto. Lorena que gostava do que fazia, ao contrário da Dra. Claudia que de mau humor aumentava a medicação de internos baseada em seus equivocados diagnósticos, foi a grande responsável pela escrita de Pedro, inclusive o autorizando a sair da galeria para escrever na paz da biblioteca onde devorou quase todos os livros lá existentes como as obras completas de Freud e Jung e outros autores indicados por Alexandre e por ela. Além é claro, de servir de inspiração para masturbações memoráveis onde às vezes até a “malvada” Dra. Claudia era homenagiada. O atendente Emerson que vivia a contradição de no íntimo condenar os procedimentos medievais da instituição, mas como funcionário ter de executá-los, foi quem preservou sua saúde mental, evitando que ele ingerisse os remédios e levasse eletrochoques, (onde dois bastonetes ligados a uma máquina são pressionados contra as têmporas do paciente imobilizado descarregando choques elétricos na caixa craniana), componentes principais daquela verdadeira fábrica de loucos. Quando a Dra. Claudia saiu em férias, Márcia sua substituta após duas entrevistas assinou a alta de Pedro. Sairia numa quinta-feira. Na última entrevista Pedro aproveitando um vacilo da médica despejou dentro do garrafão de água mineral, água que só funcionários e médicos podiam beber, todos os remédios que ao invés de por no lixo havia moído e armazenado durante sua estadia. Iriam provar do próprio veneno. Na porta de saída da ala vários internos esperavam para despedirem-se de Pedro. Com exceção do remédio Anatensol, punição pela briga com Brastemp, passara toda a temporada naquele inferno sem ingerir nem uma aspirina. Sentia-se ótimo pela primeira vez em anos. Ciente que qualquer internação motivada por álcool ou drogas, salvo casos que já apresentem complicações orgânicas ou psíquicas acentuadas, deve ser tratada sem o uso de remédios. Dirigindo-se a esperada liberdade, no meio do corredor, Adão, nu da cintura para baixo defecava em sua própria mão e arremessava os excrementos em Brastemp que sentado no banco não esboçava qualquer reação pois se encontrava impregnado. Manifestação estranha de solidariedade para com Pedro que via a cena com tristeza pela situação de ambos. Alexandre que tinha provocado grande confusão tentando proteger Dna. Enir de um outro paciente em surto psicótico agredindo-o, estava impregnado e proibido de fumar. Chorando e rindo ao mesmo tempo, abraçou Pedro e com voz pastosa disse: Pedro, tu és feito de pedra e a partir de ti construirei minha igreja, palavras de Jesus ao apóstolo Simão Pedro, balbuciou derramado em lágrimas. Tentando animá-lo o homem citou o pintor Pablo Picasso; Por que Platão declarou que os poetas devem ser expulsos da República? Justamente porque todo poeta, todo artista, é um ser anti-social. Sua frase não surtiu o efeito desejado, pois Alexandre normalmente bem humorado continuou a chorar com mais ênfase, talvez por concordar com Platão. Valdir cantava; “... eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo...” música de Roberto Carlos. Tema que para Pedro não fazia sentido pois não tinha cachorro, muito menos um que sorrisse e nem casa para chegar em frente ao portão. Peculiaridade da doença do alcoolismo que ao inverso de todas as outras que une amigos e parentes em torno do enfermo, essa desagrega a família, dilapida qualquer patrimônio e afasta os companheiros. Emerson assistindo a tudo escorado no balcãozinho lhe fez uma continência ao estilo militar que foi retribuída com um leve aceno de cabeça. Sol quente é bom, sol quente é bom, repetia Sol Quente, batendo a mão em seu ombro. Pedro, era a primeira vez que ouvia Sol Quente pronunciar um nome, vou ficar com a sua cama, lá o bicho não vai. Dizia ele entre repetições de “sol quente é bom”. Ficou aliviado em saber que de agora em diante ele esperaria a morte pelo menos deitado em uma cama e não mais seminu tremendo de frio no chão gelado do quarto. Gringo, ao qual nunca dera atenção, o abraçando fortemente falou-lhe ao pé do ouvido; também li todos os livros da biblioteca, fez uma pausa e mudando de assunto completou: deixe de ser louco e seja apenas o Pedro, essa vida de manicômio não é pra ti, é mil vezes mais fácil enfrentar as dificuldades da vida do que anular-se em um hospício. Procure manter-se sóbrio, pois se voltares talvez não saias mais. De onde menos esperava as palavras saíam sábias. Baseado no lúcido conselho do Gringo concluiu que este também não tomava a medicação. Ia saindo com a certeza que deveria ter conversado mais com o velho. Quando a última tranca da reforçada porta se abriu, Lorena vinha chegando para as consultas, seus olhos se miraram por intermináveis segundos, Pedro quase quis continuar internado, ninguém disse palavra, o homem deu três passos e ouviu o barulho dos cadeados da porta fechando o 4º E as suas costas. O difícil seria definir se o inferno ficava do lado de dentro ou de fora daquela instituição.
Eduardo Simch
Fim

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Bochincho


Bochincho 
Autoria: Jayme Caetano Braun
A um bochincho - certa feita,
Fui chegando - de curioso,
Que o vicio - é que nem sarnoso,
nunca pára - nem se ajeita.
Baile de gente direita
Vi, de pronto, que não era,
Na noite de primavera
Gaguejava a voz dum tango
E eu sou louco por fandango
Que nem pinto por quireral.

Atei meu zaino - longito,
Num galho de guamirim,
Desde guri fui assim,
Não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
'Pero - que las, las hay',
Sou da costa do Uruguai,
Meu velho pago querido
E por andar desprevenido
Há tanto guri sem pai.

No rancho de santa-fé,
De pau-a-pique barreado,
Num trancão de convidado
Me entreverei no banzé.
Chinaredo à bola-pé,
No ambiente fumacento,
Um candieiro, bem no centro,
Num lusco-fusco de aurora,
Pra quem chegava de fora
Pouco enxergava ali dentro!

Dei de mão numa tiangaça
Que me cruzou no costado
E já sai entreverado
Entre a poeira e a fumaça,
Oigalé china lindaça,
Morena de toda a crina,
Dessas da venta brasina,
Com cheiro de lechiguana
Que quando ergue uma pestana
Até a noite se ilumina.

Misto de diaba e de santa,
Com ares de quem é dona
E um gosto de temporona
Que traz água na garganta.
Eu me grudei na percanta
O mesmo que um carrapato
E o gaiteiro era um mulato
Que até dormindo tocava
E a gaita choramingava
Como namoro de gato!

A gaita velha gemia,
Ás vezes quase parava,
De repente se acordava
E num vanerão se perdia
E eu - contra a pele macia
Daquele corpo moreno,
Sentia o mundo pequeno,
Bombeando cheio de enlevo
Dois olhos - flores de trevo
Com respingos de sereno!

Mas o que é bom se termina
- Cumpriu-se o velho ditado,
Eu que dançava, embalado,
Nos braços doces da china
Escutei - de relancina,
Uma espécie de relincho,
Era o dono do bochincho,
Meio oitavado num canto,
Que me olhava - com espanto,
Mais sério do que um capincho!

E foi ele que se veio,
Pois era dele a pinguancha,
Bufando e abrindo cancha
Como dono de rodeio.
Quis me partir pelo meio
Num talonaço de adaga
Que - se me pega - me estraga,
Chegou levantar um cisco,
Mas não é a toa - chomisco!
Que sou de São Luiz Gonzaga!

Meio na volta do braço
Consegui tirar o talho
E quase que me atrapalho
Porque havia pouco espaço,
Mas senti o calor do aço
E o calor do aço arde,
Me levantei - sem alarde,
Por causa do desaforo
E soltei meu marca touro
Num medonho buenas-tarde!

Tenho visto coisa feia,
Tenho visto judiaria,
Mas ainda hoje me arrepia
Lembrar aquela peleia,
Talvez quem ouça - não creia,
Mas vi brotar no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha
Amontoou-se como um couro
E aquilo foi um estouro,
Daqueles que dava medo,
Espantou-se o chinaredo
E amigos - foi uma zoada,
Parecia até uma eguada
Disparando num varzedo!

Não há quem pinte o retrato
Dum bochincho - quando estoura,
Tinidos de adaga - espora
E gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
De cada canto da sala
E a velha gaita baguala
Num vanerão pacholento,
Fazendo acompanhamento
Do turumbamba de bala!

É china que se escabela,
Redemoinhando na porta
E chiru da guampa torta
Que vem direito à janela,
Gritando - de toda guela,
Num berreiro alucinante,
Índio que não se garante,
Vendo sangue - se apavora
E se manda - campo fora,
Levando tudo por diante!

Sou crente na divindade,
Morro quando Deus quiser,
Mas amigos - se eu disser,
Até periga a verdade,
Naquela barbaridade,
De chínaredo fugindo,
De grito e bala zunindo,
O gaiteiro - alheio a tudo,
Tocava um xote clinudo,
Já quase meio dormindo!

E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
- Já quase sem munição,
Todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
Me dei conta - de repente,
Não vou ficar pra semente,
Mas gosto de andar no mundo,
Me esperavam na do fundo,
Saí na Porta da frente...

E dali ganhei o mato,
Abaixo de tiroteio
E inda escutava o floreio
Da cordeona do mulato
E, pra encurtar o relato,
Me bandeei pra o outro lado,
Cruzei o Uruguai, a nado,
Que o meu zaino era um capincho
E a história desse bochincho
Faz parte do meu passado!

E a china - essa pergunta me é feita
A cada vez que declamo
É uma coisa que reclamo
Porque não acho direita
Considero uma desfeita
Que compreender não consigo,
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da china
E ninguém se importa comigo!

E a china - eu nunca mais vi
No meu gauderiar andejo,
Somente em sonhos a vejo
Em bárbaro frenesi.
Talvez ande - por aí,
No rodeio das alçadas,
Ou - talvez - nas madrugadas,
Seja uma estrela chirua
Dessas - que se banha nua
No espelho das aguadas